preenchimento letraromático despretensioso de lacunas existenciais pululantes e coloridas

18.10.08

saudade amanhecida

Hoje eu queria ter acordado na casa da minha mãe. De férias num dia de inverno. Eu iria levantar enrolada na manta, abrir a janela pra sentir o uivo do vento e ver o cinza no céu. Ficaria com o nariz gelado. Fecharia a janela e arrastaria minhas chinelas de pano com rendinha abraçadas aos meus pés com duas meias, pisando nas franjas da manta, até a cozinha e ia dizer bom dia, com a voz meio rouca, cabelo desgadenhado e sorriso livre pra minha mãe sentada à mesa da cozinha com uma faquinha na mão, cutucando a toalha da mesa desviando de casquinhas de pão. Iria dar um cheiro nela e responder que dormi como um anjo e que amo o silêncio de sua casa. Ela ia dizer que tinha café e se assustar levemente por lembrar que esqueceu de não colocar açúcar. Eu ia dizer não tem problema e procurar uma banana nanica na fruteira. Ela iria esquentar o leite e dizer que tinha pãozinho daquele rústico da padaria real que você gosta. Eu iria dizer que delícia e começar a contar meu sonho sonhado. Ela iria fazer uma analogia simbólica a todos os elementos e tecer suas observações e lembrar de uma história que aconteceu com ela, encher a xícara de café e dar uma mordida em ¾ do pão com manteiga e ficar com dificuldade de falar e mastigar ao mesmo tempo, mas continuaria a falar com seus grandes e inquietos olhos verdes escuros. Eu iria por meus pés ainda gelados entre a cadeira e a perna dela e ela iria dar uma ajeitadinha pra me acomodar melhor. Ali passaríamos umas duas horas entre cafés, sonhos, histórias, pães, risos e divagações.

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