preenchimento letraromático despretensioso de lacunas existenciais pululantes e coloridas

19.6.08

estou entupida

estou entupida, vazando pelos ouvidos todo meu excesso auditivo.
“ouve muito e fala pouco”, diz o sábio. pouco, não nada.
e o pouco
não dito

engulo

procuro vazão em meu âmago quase a explodir, latejando.
meus olhos expressam dó menor num baixo acústico
minha boca, algo acima de 20 mil hz, nenhum humano ouve

engulo

começa a fermentar em meu estômago
tal qual caiçuma de macaxeira mascada
estes sons todos que não paro de ouvir
este mundo todo que não paro de absorver

engulo

e de mim nem uma bolha sai,
nem um som, nem um gesto,
nenhum um, nenhum nada

engulo

a impotência que me assola
minha sombra que me assombra
meu consumo me consome
em meu sumo que me some

engulo

mais um grito, mais um choro
menos rio, me conformo
num suspiro piro. paro. me corrijo rijo

engulo

12.6.08

Viva a vovó morta!

Nunca me ocorreu tão fortemente a célebre frase “a vida não pára” quando a vida parou para mim. Foi há pouco tempo. Tive a real sensação da vida parar. A súbita ausência de vida num corpo que simplesmente pára e é descartado tal qual o salaminho estragado encontrado no fundo da geladeira, só que com cerimônias e lágrimas sinceras. Neste exato momento a vida parou, pra mim. Fiquei lá parada embaixo de um sol escaldante, com roupa vencida pelas tantas horas de viagem atravessando o Brasil para estar naquele exato momento sendo parada pela morte. Não minha, mas de minha vózinha D. Chiquinha, a famosa veínha dos cabelos de algodão, que sempre tinha a tira colo sua filha Patrícia – a pianista.
D. Chiquinha parou a minha vida com sua morte. Por instantes incontáveis estive parada, piscando, falando, comendo, fazendo tudo o que um corpo vivo faz, mas o corpo fez, eu parei. Gozado, que entrei num contra-ponto com vovó, eu mexia parada e ela parada mexia. Estava lá embaixo da terra dentro do seu caixãozinho florido completamente viva e saltitante por aí, algures (algurs, como ela dizia). E eu, corpo cheio de vida, parada, moribunda. A morte é muito sagaz, se a gente entra na onda dela, acaba morrendo também, de qualquer coisa, de tristeza, culpa, saudade, ou o mais comum de auto-piedade. Drummond já dizia que a morte causa tristeza pelo motivo mais egoísta do mundo, pela ausência que o vivo (não tão vivo assim) vai sentir do morto (não tão morto assim). É terrível! E estando na terra, nada mais eloqüente do que ser terrível!
Mas o que fico pensando, eu aqui viva, meio morta, por vovó morta, meio viva. É que na realidade estamos constantemente vivos e mortos. Independente do corpo estar vivo ou morto eu também posso estar viva ou morta. É apenas uma questão de momento. Hoje mesmo sonhei com um ex-futuro cunhado morto. Ele estava vivíssimo no sonho. Acordei pensando em ligar pro meu ex perguntando como vai o ex-cunhado. Ainda bem que logo me lembrei que ele era morto e não vivo. Mas tão vivo que não estava morto, como vovó, mas opostamente a mim - viva morta (parcialmente, ora, não me sinto a vontade em estar dando tanta trela pra morte assim).
Acho que o esquema da vida é deixar a parte morta viva também. E o esquema da morte é deixar a parte viva morta também. Assim cada um cumpre sua função com excelência.
Portanto, a célebre frase “a vida não pára” é tão interessante, pois não pára mesmo. Embora eu estive morta por instantes incontáveis, minha vida não parou e eu estou agora viva novamente e correndo atrás do meu atraso de vida, pois ela não parou. Mas a frase “a morte não pára”, que não é nada célebre, coitada, é tão verdadeira quanto. Pois quando vovó esteve viva, a morte não parou e agora ela morta estando também deve estar correndo atrás de seu atraso de morte. Vivamente!