preenchimento letraromático despretensioso de lacunas existenciais pululantes e coloridas

13.1.09

Carona na rabiola

Nos meus furtivos escapes de tela observo a porta de vidro a minha esquerda e a janela também de vidro a minha direita.
Da janela posso ver a imensa nuvem densa, escura, carregada de chuva se aproximando lentamente. Os transeuntes caminham em seus leggings e nikes. Poodles de laço cor-de-rosa na cestinha da bicicleta. Trabalhadores suados suando o dia de cansaço apressados para entupir ônibus, cruzar inundações, chegar a tempo da novela das oito e sobreviver mais um dia sobre-ultra-moribunda-mente-vivido.
Da porta vejo dezenas de pessoas sentadas, mudas, concentradas. Movimentam-se ocasionalmente, coçando a cabeça, mexendo apenas os dedos das mãos e, eventualmente, apontando alguma sutil expressão facial. Todos, sem exceção, olham cada qual para sua tela de computador. Aparentemente ignoram-se uns aos outros. Este corpo de indivíduos muda constantemente, mas é quase imperceptível, sobretudo para mim, que estou deveras envolvida, também, com minha própria tela de computador.
A emissão sonora neste ambiente compõe-se de: som de ar-condicionado, digitação em teclados, apitos de nobreaks, passos e, ocasionalmente, voz humana, a qual causa tamanha estranheza por parte dos sujeitos ali presentes. Se a voz humana se sobressai aos demais sons, o susto é ainda maior, causando indignação por parte dos sujeitos.
Tamanho distanciamento humano entre (supostamente) humanos num espaço relativamente pequeno - onde encostar vez ou outra no corpo alheio, exige automáticas desculpas pelo imenso desagrado causado pelo toque acidental - faz-me distanciar ainda mais. Mas não adentrando as entranhas da sedutora tela a minha frente. Escapo pela janela e foco meu olhar num ponto minúsculo colorido saracoteando nas alturas – uma pepeta ou uma pipa ou papagaio, rebolando, brincando de pega-pega com a nuvem que se aproxima - que se conecta a algum menino buchudo de pé descalço, gritando, correndo, rindo sem tirar os olhos do céu.

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