“O paradigma positivista é tão persuasivo que, por definição, quem o utiliza não pode ver que existem outras alternativas. A posição absolutista do positivismo exclui outras possibilidades. No entanto, o positivismo é apenas uma das várias maneiras de descrever o mundo. O que é necessário são formas pluralísticas de pensar sobre o mundo e agir para mudá-lo.” (Pimbert e Pretty)
Aproveitando o fluido ainda presente do Fórum Social Mundial de Belém, o qual levantou diversas bandeiras, cujo balangar é acompanhado pelo eco de um mesmo refrão: “um outro mundo é possível”.
Não tenho dúvidas de que um outro mundo ou mesmo uma nova forma de se lidar com este mundão velho seja possível, mas convenhamos que para possibilitar qualquer mudança é necessário um bom exercício de desapego além da conscientização, força de vontade e um bom chá de semancol.
Suponhamos que num sorteio de urgências a serem modificadas, quando não implodidas completamente, tivéssemos sorteado as Universidades - organismo legitimador do nosso atual e inquestionável paradigma. Afinal, o que seria de nosso sistema econômico e adjacências sem a assinatura de um titulado qualquer confirmando a nobreza, a necessidade e a extrema eficácia de suas ações?
Causos das causas
O causo do vestibular da UFAC é apenas uma fratura exposta num dedinho do organismo. A enfermidade do organismo é generalizada e pouco visível a olhos nus. Pois bem sabemos que as piores doenças são aquelas que não podemos ver superficialmente, tipo tumores internos, infecções sanguíneas, viroses mutantes. Enfim, cancelar um vestibular por ter parcela considerável de suas questões copiadas da internet, bem como um tema de redação e ainda por cima ser justificado pela própria reitoria como “coincidência intelectual” é quase um caso para aqueles programas de auditório apimentadores de tragédias e crimes familiares.
Com o vestibular substituto, a rigidez e fiscalização aumentaram para garantir a veracidade do concurso. Interessante observar a quem a rigidez foi aplicada: aos inocentes pleiteadores de vaga, quase impedidos até mesmo de respirar fora do lugar, como se fossem os culpados pelas presepadas que ocasionaram o cancelamento do vestibular.
Outras universidades provavelmente riem do causo, saboreando a enfermidade alheia e alimentando a superioridade com suas mazelas escondidas sob quimioterapias e disfarces afins.
Coordenador de curso desconhecer as disciplinas do curso que coordena; denominar as disciplinas de crédito enquanto os alunos estão sempre em débito; criação de datas e prazos para serem cumpridos e quebrados de acordo com a necessidade dos interessados, lembrando que alunos não pertencem à casta dos interessados. Estes são apenas alguns poucos sintomas da enfermidade do organismo, cuja existência não está sobremaneira vinculada a formar profissionais, muito menos a zelar pela educação de seres humanos – o que não é nenhuma novidade e nem preciso ficar aqui repetindo Paulo Freire e tantos outros Humanos. Aliás, o estudante é um entrave para o funcionamento do organismo. Imaginem, reitores, chefes de área, coordenadores de curso, funcionários, professores, mestre e doutores, quão mais fácil seria a vida acadêmica sem os alunos – esses estorvos ao desenvolvimento da ciência?
Linfócitos
Perdoem-me, amigos professores, vinculados aos tentáculos acadêmicos. Sei que alguns, uma parcela bem, mas bem pequena realmente acredita na educação, distingue estudantes de números e não vive apenas lustrando seus títulos com óleo de peroba desviado do almoxarifado. Nos meus mais de dez anos vinculada a algumas universidades como estudante, passei por um número de 3 ou 4 professores que valeram a pena entre mais de 60, e estes poucos me incentivaram a trabalhar para aprender e estudar aquilo que eu acreditasse.
Desejo boa sorte à mísera parcela que realmente crê e pretende sanar mazelas estando dentro delas, tal qual linfócito guerreando com bactéria. Talvez estes estejam mais próximos de serem doutores, no uso popular da palavra - médicos. Não que médicos curem doenças de fato, mas deixemos esta questão para o próximo sorteio de mudanças urgentes.
“Aprendizado não deveria ser confundido com ensino. Ensino implica transferência de conhecimento a alguém que sabe para alguém que não sabe. Universidades e outras instituições profissionalizantes reforçam o paradigma do ensino dando a impressão que são detentoras do conhecimento que pode ser dispensado ou dado (usualmente por aulas) a um recipiente (o estudante)”. (Pimbert e Pretty)
preenchimento letraromático despretensioso de lacunas existenciais pululantes e coloridas
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