
Solicitaram a minha ajuda para pesquisar mulheres, coisas de mulheres, destacar mulheres, diferenciar mulheres. Tarefa difícil, pois além de eu evitar ressaltar a diferença de gênero entre os humanos, como destacar uma e não outra? Injustiças poderão ser cometidas. E ainda, a diferença de gênero não precisa mais ser ressaltada. Está na cara, no corpo, na sensibilidade.
Infelizmente, o gênero feminino calhou de ser o mais injustiçado entre os gêneros, assim como outros tantos fatos naturais, do gênero “nasci assim, fazer o quê?”. Mas apesar de todos os aparentes esforços sociais para apaziguar a diferença, parece-me que esta é ainda mais ressaltada, sobretudo quando são estipuladas datas comemorativas, reforçando ainda mais as diferenças aparentes e criando as inexistentes.
Mas as mulheres não estão sozinhas nesta discrepância social. Qualquer “diferentinho” está sujeito a uma humilhação descabida. Que dizer do manco, do sardento, do gago, do magrelo ou do gorducho, da dentuça, do narigudo? Isto pra não falar dos injustiçados mais famosos: negro, índio, estes que ganham dia para não serem injustiçados.
A supervalorização da diferença natural cria este monstrinho da diferença ilusória, de que se precisa ressaltar a diferença a todo custo. Quem nunca recebeu um adjetivo preconceituoso? Acho que todos, com suas diferençazinhas, muitas vezes consideradas defeitos. Agora, aceitar este adjetivo e carregá-lo como um fardo é uma decisão pessoal. Será que seria preciso se criar o dia do narigudo, para os narigudos não se sentirem injustiçados ou menos narigudos?
Sinceramente, as mulheres que eu poderia elencar neste dia das mulheres, são apenas mulheres que nunca se submeteram a uma diferenciação forjada e nunca deixaram de respeitar a si mesmas com suas diferenças naturais, não permitindo, assim, já de antemão, qualquer tipo de desrespeito.
Mas, quantas agiram assim? E quantos agem aceitando seus prórprios narigões, sua gagueira, cabelo pixaim, pinta cabeluda ou qualquer outro detalhe não aceito por um modelo social frágil, volátil, ilusório e altamente criador de preconceitos, aceitos, repassados e reforçados por cada indivíduo que não consegue aceitar e respeitar, primeiramente, a si próprio?
Será que num dia das mulheres está se valorizando as mulheres? Ou se criando e reforçando uma diferença alimentada e reproduzida pelo imaginário social, através de cada indivíduo, cada mente humana ignorante e despreocupada de si mesma, de seu próprio narigão, chulé, caolho ou qualquer diferença tão comum. Distraída com os olhos coloridos da global, com o carro do vizinho, com a doença do véio bronco da padaria. Enfim, entretida em fuxicar a vida alheia, recebendo historinhas de preconceitos, passando para frente, se identificando com tudo o que é desgraçado e desalentado e, sem nem saber por que, sair gritando justiça por qualquer meio de fuxico reunido. Sendo, às vezes, um grito de justiça contra si mesmo, contra se propor a ser apenas o que se é e nada mais, nem menos.
Mas, se é para haver comemoração de algo, só para sair gritando qualquer-coisa-legal-aí-meu, poderíamos mudar esta data para o dia internacional do fuxico, seria mais coerente. E colocar todas as datas provindas de diferenciações, como dia do índio, dia do negro, dia da paz, dia da saúde, dia do trabalho etc, numa só data: dia do fuxico. O cenário que me vem aos olhos com estas datas estipuladas me parece um tanto sinistro, embora real. Pense: escolher uma data para se lembrar que existem estas coisas tipo mulher, paz, índio, negro, trabalho, saúde? Logo, todos os outros dias são ausentes disto! Imagine um mundo só com homens brancos, guerra, doença e vagabundagem?
Definitivamente, não quero contribuir com isso e não quero viver apenas em meia dúzia de dias do ano. Os 365 dias e 6 horas estão/são para todos. Nunca ouvi o sol - o verdadeiro dono do dia - ao amanhecer, perguntar pra alguém seu sexo, cor, sobrenome, idade, se é feia, doente, analfabeta, mudo, alegre ou brega. E mesmo assim, clareia o dia para todos os viventes.
Foto: Rafael Johann
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