A luz azulada do ambiente vinha de um filme de seqüestro na televisão. Sentado no chão, Fabiano ajeitava os pulsos, pode apertar meu braço, o dela não. Pedro tremia um tanto, encoberto por um capuz, enquanto acochava o nó do lençol no meu braço até me escapar um suspiro apertado. Pedro parou imediatamente, tá bom? Não precisa apertar não, não vou fazer nada. Não, não vou apertar, não quero te machucar, o que que eu to fazendo aqui? tá calor, não sirvo pra estas coisas, quero jogar bola, mas ele eu aperto, bem forte, será que tá bom? também não preciso apertar tanto, mas e se ele? vou apertar só mais...
A polícia não demorou. Fez algumas perguntas, pediu a descrição dos marginais. Rapazes, um mais novo encapuzado e outro mais velho de boné. Escuro. Calor. Meninos. O mais tranqüilo e experiente deixou escapar o nome do mais jovem – Pedro. Fica nervoso não, Pedro, come chocolate, segura essa arma véia direito. Talvez nem funcionasse.
Os policiais – 4 numa viatura - além das perguntas corriqueiras, disseram que nada poderiam fazer, que deveríamos ir ao GAP, que era o lugar de investigação. No mais, comentários esdrúxulos, estes marginais precisam apanhar, você é psicólogo? viu o que dá ficar passando a mão na cabeça deles?. Fizeram mais algumas piadas e foram embora, engasgando-se com a própria saliva.
No dia seguinte, horas na delegacia, detalhando todo o ocorrido. O escrivão praticamente não precisava perguntar nada, adivinhava cada ação. E comeram? estes vagabundos! à pé? bem magros, né? típico. Caso sejam encontrados, poderão ser espancados, ou se tiverem sorte, presos, alimentando a ilusão de que o problema foi resolvido. Na prisão, a ira, a solidão e o medo cantam em coro uma cantiga de ninar que, por favor, faça-me dormir, só esta noite, dormir e se, por favor, não quiser me acordar, não me acorde, aqui dentro, de novo não.
Os policiais, rindo, continuaram embebidos em deboche a ronda na madrugada, com armas apoiadas à margem da janela do carro, se encontrá-los, os pego, os prendo, os mato, ops, errei, não era Pedro, era Paulo, pelo menos um a menos destes uns, marginais, são o que são, vamos, passe a mão na cabeça agora, eu faço é arrancar a cabeça dele, que não é gente, é marginal, não é menino, é animal.
E eles seguem, fumando seus cigarros a 80km/h com olhos de eu posso, sim eu posso te matar agora se você me olhar daí da margem, com esses olhos de remela, esses olhos de eu quero cuspir na sua cara, eu quero é comer bombom e ouvir uma estória, eu quero é acordar com cheiro de café e não de fome, eu quero é cheirar cola pra não dormir e acordar aqui de novo de novo de novo.
4 adubações:
Nat, agora fiquei super aprensivo! Essa postagem foi um sonho?? Não me diga que aconteceu de verdade.... Ai ai... que coisa! Entraram na sua casa??
Outra coisa, mesmo ficando um pouco suspeito, nem todo policial merece detratação. Apesar de não entenderem os direitos humanos plenamente, existem muitos bons homens na polícia.
Espero que não tenha sido de verdade...
Luz e paz!
Thiago.
sim, foi verdade. bons homens têm em todos os lugares, na penal tb.
Adorei a postagem, bastante instigante, só de ler fiquei apreensivo e me sentindo na margem também...
querida, dou graças a este amanhecer por você estar aqui..respirando, verde, linda, brilhante!
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